Cristovão Tezza nasceu em Lages,
Santa Catarina, transferindo-se ainda criança para Curitiba, onde vive até
hoje. Ficcionista consagrado, com incursões na área teórica e na crítica
literária, publicou entre outros, os romances: Trapo, O fantasma da infância,
Juliano Povollini, Aventuras provisórias (Prêmio Petrobrás de literatura,
1987), Breve espaço entre cor e sombra (Prêmio Machado de Assis da Biblioteca
Nacional de melhor romance de 1998), A suavidade do vento, Uma noite em
Curitiba, Ensaio da paixão e O fotógrafo (Prêmio da Academia Brasileira de
Letras), Bravo, Um erro Emocional, Beatriz (contos) e, O filho eterno. Tezza
foi publicado em vários países, na França recebendo o prêmio Charles Brisset,
de melhor livro do ano, da Associação Francesa de Psiquiatria.
O livro desnuda a prosa desde a
invenção da escrita para escrever cartas que encurtavam distância de pessoas,
inclusive, no quesito saudade, até o advento da internet que na visão do autor,
popularizou a palavra escrita de uma forma jamais vista em nenhum momento da
história; não há uma só página da internet sem alguma palavra escrita e sem
alguma exigência ou algum convite para que se escreva algo, e sempre algo
familiar, intransferível, próximo; apesar do inacreditável poder imagético da
internet, a palavra reina soberana.
Nas respostas define e se define.
Isto torna o livro interessante: O que leva alguém a escrever? O que nos leva a
escrever? Sem problemas para resolver, para que serve a literatura? Sem
problemas pessoais para enfrentar, para que serve a literatura? ...sem saber eu
já organizava cada passo da minha vida em torno da ideia de ser um escritor. E
o que eu havia escrito? E o que eu escrevi agora, depois da ruptura do emprego
formal no escritório? Que conceito eu tinha, agora, de literatura? E naquele
momento (1970), o que eu queria escrever? Quem sou eu, afinal, para falar em
primeira pessoa? Todo escritor, a todo instante, se vê às voltas com amontoados
de palavras que parecem se descolar, aqui e ali, de suas referências, como
animais indóceis, e é preciso domesticá-los. Que aprendizado é esse? Alguém
havia me dito, depois de ler um poema meu: Você quer escrever como se já fosse
o Manuel Bandeira. Tem de começar do começo. [...] Rio Apa [...] Disse-me: Sim,
você tem de escrever como se você fosse o Manuel Bandeira, o Faulkner, o
Conrad. Pense sempre no máximo, queira sempre o máximo, ou não vale a pena
escrever. Imediatamente absorvi a pretensão, empinando o nariz, como quem
súbito conquista outro patamar: sim, por que não? De que serve um livro sem
gravuras?, perguntava Alice. Por quais caminhos cheguei aí, pesando o que penso
nesse espírito da prosa que agora escrevo? Afinal, o que tinha mesmo a dizer?
[...] Pessoas felizes não escrevem... Por que diabos iriam eles largarem os
prazeres tranquilos da felicidade pela incerteza e terrível solidão de escrita
que, quando de farto assumida, é uma viagem sem volta? De que modo este
narrador – a linguagem que conta o livro que escrevo – não se confunde com
aquele que escreve? Conclusão?
Em sua biografia literária o
autor traça todo um panorama de sua geração localizando os ideários dos anos
1960 e 1970 acabando num desabafo: Talvez a ausência mais terrível da minha
geração (nascido em 1952) tenha sido decorrente da morte da política como
atividade pública cotidiana, e o apagamento da ideia da diferença política como
essencial à vida em comum, um conceito jamais assimilado plenamente pela
cultura brasileira; tudo, dos hippies orientalistas aos gorilas militares –
parecia convergir para o conceito de um mundo único que suprime todos os
demais. Parece que a única ideia de transgressão que restou, vicejou e que
deitou raízes profundas foi a transgressão moral – todos os dias vejo na
televisão cidadãos da minha idade, que certamente viveram a mesma atmosfera do
meu tempo e partilharam quem sabe os mesmos sonhos transformadores, hoje
entranhados na máquina de Brasília e afundados até o pescoço na clássica
corrupção nacional.
Luiz Humberto Carrião
(l.carriao@bol.com.br)

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