9 de fevereiro de 2014

O ESPÍRITO DA PROSA: uma autobiografia literária / Cristovão Tezza. – Rio de Janeiro: Record. 2012.

Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, transferindo-se ainda criança para Curitiba, onde vive até hoje. Ficcionista consagrado, com incursões na área teórica e na crítica literária, publicou entre outros, os romances: Trapo, O fantasma da infância, Juliano Povollini, Aventuras provisórias (Prêmio Petrobrás de literatura, 1987), Breve espaço entre cor e sombra (Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional de melhor romance de 1998), A suavidade do vento, Uma noite em Curitiba, Ensaio da paixão e O fotógrafo (Prêmio da Academia Brasileira de Letras), Bravo, Um erro Emocional, Beatriz (contos) e, O filho eterno. Tezza foi publicado em vários países, na França recebendo o prêmio Charles Brisset, de melhor livro do ano, da Associação Francesa de Psiquiatria.

O livro desnuda a prosa desde a invenção da escrita para escrever cartas que encurtavam distância de pessoas, inclusive, no quesito saudade, até o advento da internet que na visão do autor, popularizou a palavra escrita de uma forma jamais vista em nenhum momento da história; não há uma só página da internet sem alguma palavra escrita e sem alguma exigência ou algum convite para que se escreva algo, e sempre algo familiar, intransferível, próximo; apesar do inacreditável poder imagético da internet, a palavra reina soberana.

Nas respostas define e se define. Isto torna o livro interessante: O que leva alguém a escrever? O que nos leva a escrever? Sem problemas para resolver, para que serve a literatura? Sem problemas pessoais para enfrentar, para que serve a literatura? ...sem saber eu já organizava cada passo da minha vida em torno da ideia de ser um escritor. E o que eu havia escrito? E o que eu escrevi agora, depois da ruptura do emprego formal no escritório? Que conceito eu tinha, agora, de literatura? E naquele momento (1970), o que eu queria escrever? Quem sou eu, afinal, para falar em primeira pessoa? Todo escritor, a todo instante, se vê às voltas com amontoados de palavras que parecem se descolar, aqui e ali, de suas referências, como animais indóceis, e é preciso domesticá-los. Que aprendizado é esse? Alguém havia me dito, depois de ler um poema meu: Você quer escrever como se já fosse o Manuel Bandeira. Tem de começar do começo. [...] Rio Apa [...] Disse-me: Sim, você tem de escrever como se você fosse o Manuel Bandeira, o Faulkner, o Conrad. Pense sempre no máximo, queira sempre o máximo, ou não vale a pena escrever. Imediatamente absorvi a pretensão, empinando o nariz, como quem súbito conquista outro patamar: sim, por que não? De que serve um livro sem gravuras?, perguntava Alice. Por quais caminhos cheguei aí, pesando o que penso nesse espírito da prosa que agora escrevo? Afinal, o que tinha mesmo a dizer? [...] Pessoas felizes não escrevem... Por que diabos iriam eles largarem os prazeres tranquilos da felicidade pela incerteza e terrível solidão de escrita que, quando de farto assumida, é uma viagem sem volta? De que modo este narrador – a linguagem que conta o livro que escrevo – não se confunde com aquele que escreve? Conclusão?

Em sua biografia literária o autor traça todo um panorama de sua geração localizando os ideários dos anos 1960 e 1970 acabando num desabafo: Talvez a ausência mais terrível da minha geração (nascido em 1952) tenha sido decorrente da morte da política como atividade pública cotidiana, e o apagamento da ideia da diferença política como essencial à vida em comum, um conceito jamais assimilado plenamente pela cultura brasileira; tudo, dos hippies orientalistas aos gorilas militares – parecia convergir para o conceito de um mundo único que suprime todos os demais. Parece que a única ideia de transgressão que restou, vicejou e que deitou raízes profundas foi a transgressão moral – todos os dias vejo na televisão cidadãos da minha idade, que certamente viveram a mesma atmosfera do meu tempo e partilharam quem sabe os mesmos sonhos transformadores, hoje entranhados na máquina de Brasília e afundados até o pescoço na clássica corrupção nacional.

Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br)

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