12 de janeiro de 2014

KAFKA E A MARCA DO CORVO: romance biográfico sobre a vida e o tempo de Franz Kafka / Jeanette Rozsas. – São Paulo: Geração Editorial, 2009.

Literatura e Psicanálise – existe relação entre elas? Uma coisa é certa, a literatura pré-existe à psicanálise. Depois, Gilcia Gil Becker assevera que ‘como fruto da subjetividade e forma sublimatória da pulsão, a literatura fornece preciosos elementos para análise das manifestações inconscientes’, reporta a Freud ‘que sempre reconheceu o quanto a arte e a literatura anteciparam e confirmaram as descobertas da clínica psicanalítica’. O grego Sófocles que o diga!

Jeanette Rozsas nos coloca como psicanalista numa cadeira ao lado de um divã onde Franz Kafka se dispõe a falar de sua infância interrompida, de sua adolescência roubada, das invalidações, de sua mente inquieta. Na adultez, os esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginário; relacionamentos instáveis; perturbação de identidade com resistência a autoimagem; recorrência a pensamentos suicidas; instabilidade afetiva; sentimento crônico de vazio.

Não se trata de obra de ficção. Jeanette construiu os diálogos com esmero cuidado na seleção de cartas e diários do biografado e seus amigos mais próximos. Traz desde a sua introdução um extraordinário texto descritivo sobre a cidade de Praga do quarto quartel do século XIX. Texto que se prende aos detalhes valorizando as mínimas coisas. Uma paisagem que se confunde com o próprio Kafka. Praga e Kafka se fundiram em uma só entidade. A beleza de sua obra acabou por adornar uma joia esculpida pelos mais belos artistas do Império Austro-Húngaro, a cidade velha de Praga.

A autora começa a projetar a personalidade de Kafka a partir da realidade vivida pelo seu pai, Hermann Kafka, em sua convivência familiar na infância e adolescência; sua ida para a cidade de Praga onde conheceu Julie, que mais tarde lhe daria três filhos do sexo masculino: Franz, Georg e Heinrich, dos quais somente Franz Kafka sobreviveu. Na primeira vez que viu o filho Franz, Hermann o rejeitou por não se tratar da criança esperada. Ao invés de um brutamonte, forte, corado, guloso, que chorasse aos plenos pulmões dia e noite, característica dos ‘Kafka’, Franz era uma menino miúdo, magro, quieto, chorava quando com fome, de boa índole e com os cabelos pretos como os da família de sua mãe, os Löwy. Georg, o segundo filho, nasceu com todas as características desejadas por Hermann, que em momento algum se preocupou com sua preferência a Georg que, morreu de sarampo ainda na infância. Heinrich não era franzino como Franz e nem um brutamente como Georg, também morreu na infância com otite. Duas perdas para Franz, notadamente, Heinrich a quem era muito apegado. Seguiu-se a cobrança de Hermann sobre Julie na busca de outro filho, de outro Georg. Achava Franz um fracote. Muitas vezes chegava a falar para o menino ouvir que ele deveria ter nascido menina. E nesses momentos exarava a frase: _Ah! Se Georg não tivesse morrido... Invalidação total. Outras vezes quando da presença de visitas, chegava a afagar o filho, que de medo se encolhia. Nesse momento dizia aos convidados: _Vejam como o meu filho é medroso. Basta por a mão em sua cabeça que ele encolhe como um ratinho! E explodia em gargalhada deixando o pequeno Franz mortificado de vergonha. Outras vezes diante dos irmãos Hermann gritava para Julie ouvir: _Isso Julie, carregue o menino agarrado à sua saia e você terá um mariquinha para criar. Enquanto as risadas do pai explodiam como trovões, o pequeno Franz lutava contra as lágrimas. Isso não deixava de ser um abuso em referência à sexualidade do menino. Os reflexos vieram ao longo de sua efêmera existência.  Um livro necessário à estante de psicólogos, psiquiatras, psicanalistas. Em ‘Kafka e a marca do corvo’ o leitor não deixa de ser um analista num romance biográfico que revela toda a subjetividade humana.


Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br) 

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